Planejando um futuro incerto: como ficam as expectativas e metas? – 2

Se você chegou até aqui, é porque já leu nossa primeira matéria sobre expectativas e metas em um futuro incerto. Se ainda não leu, aproveite para dar uma olhadinha no que Carol Shinoda e Denise de Moura, professoras dos MBAs USP/Esalq, disseram sobre o assunto clicando aqui!

Terminamos o post anterior falando sobre o conceito de antifrágil e sua aplicação no mundo VUCA. Isso influencia diretamente na construção das nossas expectativas e metas para o ano que vem.

Aproveitando o tema, Denise dá algumas dicas. “As pessoas que passaram por mudanças mais radicais durante 2020, como perder um emprego ou a recolocação em outra área, podem usar isso a seu favor e buscar reformular e ressignificar toda uma vida, pensando no que se quer daqui pra frente”, explica.

Para quem as mudanças não foram muito radicais (ou foram mais positivas), a professora aposta no ajuste de prazo e na contribuição com as pessoas ao redor.

“Podemos usar como exemplo empresas da área de tecnologia e a Amazon, que tiveram lucros estrondosos durante a pandemia. Outro bom exemplo é de Ladmir Carvalho, presidente da quinta maior empresa de tecnologia do país. Entendendo as dificuldades dos restaurantes com relação à logística, ele desenvolveu um software para ajudar nos pedidos e entregas. Também desenvolveu um programa de tecnologia para capacitar jovens”, lembra Denise, que aposta na solidariedade para superar as crises.

Faz sentido!

Retomando o assunto da matéria anterior sobre propósito, Carol citou o psiquiatra Viktor Frankl, que viveu na época do holocausto e passou por quatro campos de concentração, e seu livro “Em busca de sentido”. Fundador da logoterapia, a terapia com base na busca por sentido, ele destaca a importância do propósito como fonte de resiliência, inclusive de longevidade e saúde nos campos de concentração.

“Frankl usa uma frase famosa do filósofo Friedrich Nietzsche que diz o seguinte: ‘quem tem por que viver, suporta quase qualquer como’. Quem tinha razão de vida e pelo que sair do campo de concentração, tinha melhor saúde e vivia mais e melhor dentro daquelas condições horríveis”, explica a professora.

Para extrair sentido na vida (e motivar as expectativas e metas), Frankl propõe um exercício de três tipos de valores. Carol comenta cada um deles:

  • Valores de criação: têm a ver com nosso trabalho, hobbies, estudos e coisas que colocamos no mundo. Dependem da nossa interação com o mundo (e de lembrarmos que o mundo tem limitações que podem levar aos ajustes de planos).
  • Valores vivenciais: estão ligados às experiências. Quando comemos uma comida gostosa, cuidamos dos pets ou temos bons momentos entre família e amigos. É diferente de criar algo no mundo, pois tem a ver com vivenciar. E não necessariamente tem a ver com prazeres, mas com algo mais profundo com relação ao que realmente importa para cada um. E isso é ilimitado.
  • Valores de atitude: são nossas reações frente a situações que não temos controle, como doenças e morte. É a atitude relacionada à valentia, força, fé, coragem e sentimentos que nos ajudam a dar sentido para a vida, para estarmos aqui, conectados com o que acreditamos.

O mundo externo

Cientes de que o mundo externo tem suas limitações, quando temos expectativas e metas que se relacionam com os valores de criação citados acima, é preciso entender como isso pode nos influenciar e utilizarmos dos nossos valores de atitude para seguirmos fortes e motivados.

“Quantas pessoas, que antes eram muito resistentes a mudanças tecnológicas, por exemplo, aprenderam rapidamente a fazer compras online e a realizar transações bancárias? Hoje, possivelmente elas se sentem mais seguras e confiantes, além de satisfeitas por terem vencido uma resistência. O que parecia tão complicado acabou sendo uma excelente forma de otimizar o tempo”, comenta Denise.

Alguns comportamentos sofreram mudanças radicais (mesmo que positivas), assim como algumas expectativas e metas pessoais. “Alguns alunos meus que planejaram fazer um MBA presencial, acabaram estudando a distância e, hoje, acreditam que não voltariam a optar pelo modelo tradicional”, exemplifica a professora.

“Com os valores de atitude, muitas mudanças que nos foram impostas poderão ajudar daqui para a frente, e as competências adquiridas ou aprimoradas poderão nos fortalecer para um futuro ainda incerto.”

E o medo?

Sentimentos como medo, receio, ansiedade e frustração são naturais, especialmente quando enfrentamos uma crise mundial tão complexa como esta que vivemos. Mas, como tudo, o medo também tem dois lados.

“De forma negativa, ele nos paralisa , nos prejudica e nos faz acreditar que não conseguimos avançar, catalisando a autossabotagem. Do lado positivo, ele nos deixa mais precavidos. E é essa é a forma que devemos encarar”, diz Denise.

“A nossa frustração pode ser diminuída se tivermos um plano, mesmo que de curto prazo, sobre o que precisamos fazer. Em vez de nos preocuparmos, nos ocupamos com questões importantes, por exemplo: como ter um ano novo mais produtivo com as ferramentas que tenho hoje e a possibilidade de ampliar algumas competências?”, questiona.

Clareza nos obstáculos

Em essência, a ideia de planejar um ano é uma fórmula muito parecida para todos os anos. A diferença é que este ano temos um obstáculo muito visível e comum para todos, mesmo que cada um tenha diferentes maneiras de viver, diferentes parâmetros de segurança e até diferentes condições de enfrentar a doença.

Cada um vive a sua própria dificuldade, mas, minimamente, hoje temos clareza de pelo menos um dos obstáculos. “No geral, não temos noção de tudo que vai acontecer. Podemos ter alguma noção de restrição real e consciente, como iniciar um ano com a situação financeira um pouco mais apertada, mas outras restrições vão aparecendo e não só agora. Esse é o fluxo da vida”, enfatiza Carol.

Definindo expectativas e metas

Vamos à parte prática. A dica da professora Denise é ter cautela e foco na hora de definir as expectativas e metas para 2021. “Mais do que pensar sobre o que você gostaria de fazer, que tal pensar sobre o que você precisa fazer? Porque esse processo exige ressignificação de questões comportamentais pessoais e profissionais”, provoca.

A professora elencou algumas questões que podem orientar a criação de uma lista de expectativas e metas para o ano novo:

  • Quais competências serão exigidas de mim em 2021?
  • O que posso fazer para ajudar a minha empresa a crescer?
  • Como fazer a diferença para os meus clientes? Eles continuarão comprando os meus produtos e serviços?
  • Temos planos de contingência para futuras vulnerabilidades?
  • Quais funções e cargos não existirão mais e quais irão surgir ou têm surgido com rapidez? Eu sou um profissional competitivo diante deste cenário de mudanças?
  • Como ajudar profissionais que foram demitidos e precisam se recolocar?

“Precisaremos ser mais produtivos e efetivos em menor tempo, ajudando as pessoas e organizações a nossa volta a se reerguerem”, aconselha Denise.

Para Carol, devemos continuar tendo esperança, alimentando nossos sonhos e tendo consciência das adversidades da vida, dessa forma conseguimos fomentar cada vez mais nossa capacidade de criar a partir da dificuldade, se apoiar e cuidar da nossa rede de apoio.

“Também vale sempre investir em autoconhecimento para ter clareza do que realmente importa e ir atrás de metas que são realmente significativas e que se alinham com nosso propósito de vida.”

E você, como estão suas expectativas e metas para 2021? Conte para a gente!

Autor (a)

Marina Petrocelli
Mais de 12 anos se passaram desde minha primeira experiência com Comunicação Social. Meus primeiros anos profissionais foram dedicados às rotinas de redações com pouca ou nenhuma relevância digital. O jornalismo plural se resumia em apurar os fatos, redigir a matéria e garantir uma foto expressiva. O primeiro sinal de mudança veio com a proposta para mudar de realidade e experimentar um formato diferente de produzir. Daí pra frente, as particularidades do universo do marketing se tornaram permanentes. Ah! Também me formei em Direito (com inscrição na OAB e tudo). Mas nem tudo se resume às minhas habilidades profissionais. Como produtora de conteúdo, me interesso por boas histórias, de pessoas reais ou em séries, filmes e livros, especialmente distopias. Gosto de montar roteiros de viagens e reconhecer estrelas e constelações em um aplicativo no celular. Museus, música e arte no geral chamam minha atenção, assim como cultura pop.

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