Como a educação pode despertar o empreendedorismo na infância

O ser humano tem, por vocação, a vontade de transformar. Apesar de não nascermos empreendedores, esse é um potencial que, assim como outros que oferecem melhorias à sociedade, deve ser desenvolvido ainda na infância.

Segundo o escritor e criador de programas de ensino de empreendedorismo para universidades e escolas, Fernando Dolabela, a capacidade de empreender identifica e resolve problemas, na medida em que muitas pessoas os enfrentam.

“Por que o Google e Facebook são grandes? Porque muitas pessoas precisavam de uma solução, que eles ofereceram. O empreendedorismo se manifesta através da transformação, inovação e oferta de valores positivos. Esse é um conceito do que ele faz”, explica.

Na organização profissional com a qual estamos acostumados, existe uma divisão entre especialistas e empreendedores. De acordo com Dolabela, os especialistas também são capazes de resolver problemas, mas com práticas desenvolvidas através do domínio de conhecimentos.

“Eles são fundamentais, pois cuidam da nossa vida aplicando técnicas conhecidas. É como o médico que estudou para ajudar as pessoas. Esperamos que ele aplique a técnica e ciência mais recente. Já o empreendedor cria algo novo para chegar a uma resolução, e isso pode envolver riscos”, relaciona.

Habilidade inibida

Engana-se quem relaciona o ato de empreender apenas aos negócios. Por mais que as iniciativas tendam a gerar empresas e soluções rentáveis, essa habilidade pode estar presente em qualquer área humana. Um simples exemplo são os pintores, que buscam por inovação para transformar a arte. “Por natureza, empreender é criar o futuro, porque nós evoluímos quando se cria o futuro e quando se introduz qualquer novidade”, observa Dolabela.

Entretanto, o incentivo ao empreendedorismo ainda é cercado por convicções erradas, muitas vezes criadas pela cultura e pela educação em escolas. “Caímos na conversa de que o empreendedor ou é bom ou é ruim. Se você diz não ao estado empreendedor você mata, inibe e sufoca o que mais tem na humanidade, que é o desejo de inovar, modificar e alterar para o bem de todos.”

Segundo o escritor, olhar dessa forma para o Brasil, no ambiente educacional, se torna importante. Ainda apegadas à evolução industrialista, que não rompe sistemas, as escolas tendem a deixar de falar sobre a criatividade, colocando como mais importante o conhecimento técnico.

“Nosso país, infelizmente, é uma fábrica de pessoas que trabalham e não inovam. Sabemos que não inova quem tem saber, mas sim aquele que tem o modelo mental inovador”, comenta.

Dolabela expõe que o maior problema da população brasileira, atualmente, está na educação básica. Para ele, é nesse momento que o aluno deveria receber ajuda para descobrir seus próprios talentos, entrando no ciclo da paixão. “Somo seres emocionais e isso move o mundo. Temos um grau de racionalidade que existe para levar a uma evolução. O que há é o talento movendo a emoção. Eu só busco conhecimento porque me emociono.”

O que a escolas podem oferecer

Ainda apegadas aos modelos tradicionais de ensino, as escolas se baseiam no conhecimento como protagonista. Dolabela explica que esse modelo não funciona mais, tendo em vista que o aluno destaque da turma pode conseguir um emprego sem brilho, que não lhe desperta paixão.

Isso indica uma relação do empreendedorismo como fenômeno cultural e não exclusivamente cognitivo. “As pessoas com quem eu convivo têm esse costume, então eu desenvolverei ele também”, comenta. “Aqueles universitários que criam empresas já cresceram nesse meio, já tinham um modelo mental enraizado na infância. Podemos ver isso nos maiores empresários do mundo”, completa.

Trabalhando com educação para universidades e, desde 2000, para a educação infantil, o escritor observou que crianças começam a desenvolver o pensamento e forma de ver o mundo logo cedo. “Aos cinco, eu posso aprender a mudar o mundo. Mas as escolas inibem a criatividade”, lamenta.

Desde a educação básica, a criatividade pode ser perdida durante os anos e, mesmo que não definitivamente extinta, ela se torna enfraquecida. Dolabela atribui a isso uma vida sem a descoberta dos próprios talentos, gerando pessoas passivas e sem boas visões de futuro.

“Diante da oferta de trabalho, escolhemos o emprego que for mais sólido, que pague melhor, que esteja em crescimento ou o que seja perto de casa. Esse é um olhar influenciado pela institucionalidade e não pelo pensamento crítico e inovador.”

No empreendedorismo, ele explica que o indivíduo passa a olhar para dentro de si, procurando pelos desejos e sonhos mais profundos. “As crianças têm uma capacidade incrível que não pode ser inibida. Desde novas, elas recebem um modelo mental de que o bom é ter um emprego. Elas irão crescer com esse viés e serão o tipo de pessoa que aperta o parafuso, sem questionar como aquilo pode ser feito de forma diferente”, ilustra.

Onde tudo começa

Ao começar a trabalhar com crianças, Dolabela percebeu que poderia alcançar um objetivo pessoal de fazer a diferença, mesmo que de forma pequena. Para isso, ele criou uma metodologia chamada Pedagogia Empreendedora, que é direcionada à educação básica.

“O empreendedorismo requer uma sociedade empreendedora, então ele precisa atingir a comunidade. Na escola há um investimento e a comunidade também se torna educanda, uma vez que os pais das crianças e líderes dessa cidade participam do processo”, comenta.

Na linha de aprendizado, a escola entra com as crianças de forma organizada e acessível. Para o escritor, essa educação precisa também ser transmitida pelas mídias, quando cercadas pela confiabilidade e seriedade da informação.

Com esses passos, ele acredita que a metodologia – que é utilizada pela ONU (Organização das Nações Unidas) em países da África e já foi aplicada no Peru, Chile e Argentina – passe uma visão de que as empresas são um fenômeno operacional, mas não ideológico.

“Nós precisamos desses serviços em diversas áreas, mas a visão de pessoas que não criam, que não usam seu potencial de rebeldia, inconformismo e de crítica para mudar sua realidade e o mundo não pode ser aplicada de forma alguma para crianças. Elas são o que temos de potencial de desenvolvimento, inclusive falando em uma prospecção do futuro do país”, finaliza.

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Autor (a)

Ana Rízia Caldeira
Boa ouvinte, aprecio demais os momentos em que posso ver o mundo e conhecer as coisas pelas palavras das outras pessoas. Não por menos, entrei para o jornalismo. E além de trazer conteúdos para o Next, utilizo minhas habilidades de apuração e escuta para flertar com a mini carreira de apresentadora nos stories do MBA USP/Esalq, no quadro Você no Camarim. Quando não estou me ocupando em ser a garota dos textos e do Instagram, gosto de usar meu tempo para devorar livros, acompanhar algum bom filme, enfeitar minha casa com tapetes de crochê, desenhar flores e abusar dos meus dotes na cozinha.

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