Faça O trabalho PORCO e construa um bom material acadêmico

Dedico este artigo ao amigo Marcos Milan (ESALQ/USP). A maioria das reflexões a seguir foram originadas de conversas que tivemos durante o desenvolvimento da minha tese de doutorado. Obrigado professor.

O trabalho de conclusão de curso, seja ele uma monografia, uma dissertação ou uma tese, não é um bicho de sete cabeças. Na verdade, ele é um bicho de uma cabeça só. Cabeça, corpo e pé. Uma estrutura integrada, inter-relacionada, sistêmica. O desafio para aqueles que não estão habituados a desenvolver trabalhos dessa natureza é justamente este, encontra um fio condutor.

Neste sentido, utilizando de uma mistura de conceitos das ferramentas de gestão, como o 5W2H (What/O quê; Why/Por que; Where/Onde; When/Quando; Who/Quem; How/Como; How much/Quanto custa), o ciclo PDCA (Plan/Planejar; Do/Fazer; Check/Checar; Action/Agir) e diagrama de Ishikawa (espinha de peixe ou causa/efeito, como desejar), proponho o método O PORCO (O quê / PORque / Como / O que deu) para a realização de trabalhos acadêmicos.

Uma “metodologia” nada original, mas com nome engraçado e amigável, objetivando, sobretudo, fixar a linha de raciocínio por trás do grande “bicho papão”. Vamos lá!

O PORCO começa com a coisa mais difícil (na minha opinião) na elaboração de um trabalho, que é definir “O quê” fazer. Aquela meia dúzia de linhas que vai no final da “INTRODUÇÃO” (as palavras em negrito e caixa alta são as estruturas centrais de um material de natureza acadêmica) nos dá um trabalho danado, exigindo semanas, meses, quando não anos, para termos uma definição.

E não é para menos, afinal, tudo depende dele: o objetivo do trabalho. Ele é o início do ciclo. Mas para chegar no “O quê”, tem que haver um “POR que”. Uma justificativa coerente para que o trabalho seja realizado. Deixar claro a motivação do mesmo é tão importante quanto dizer o que pretende fazer. Portanto, objetivo e justificativa são elementos fundamentais na “INTRODUÇÃO”, determinantes para o resto do trabalho. E como diria o filósofo compadre Washington, “pau que nasce torto, nunca se endireita”. Sendo assim, atenção, pois se começou errado…

Definido o objetivo e as razões para realização do trabalho, o próximo passo é evidenciar o “Como” ele será conduzido. Na estrutura, esta é etapa é batizada, geralmente, de “MATERIAL E MÉTODOS” ou “METODOLOGIA”. Neste sentido, deve-se deixar claro o que será utilizado no trabalho, por que será utilizado e como será utilizado.

Pense na divisão “ingredientes” e “modo de preparo” de qualquer receita culinária. É a mesma coisa, exceto pelo de fato de raramente ser explicado o porquê do uso de determinado ingrediente. E como colocado no início do parágrafo, evidente que os ferramentais utilizados devem obrigatoriamente ir ao encontro com o objetivo do trabalho, caso contrário, não tem o porquê estar lá.

Não tem sentido um ingrediente estar na receita se ele não for utilizado. E finalizando a questão do “Como” ou do “Material e Métodos”, o cerne de tal item é a repetibilidade. Assim como uma receita culinária, o intuito é que outras pessoas, se desejarem, consigam replicar.

Seguindo a linha de raciocínio e, como já preconizava Newton em sua terceira lei, “para toda ação existe uma reação”. A “reação” do seu trabalho, ou seja, “O que deu”, é justamente o “recheio” do item “RESULTADOS E DISCUSSÃO”. Nele você deve explorar o desfecho do trabalho, aquilo que você obteve, a partir dos métodos que utilizou, visando o objetivo pré-estabelecido (perceba, uma coisa puxa a outra).

É aqui também que você deve confrontar os teus resultados com outros resultados obtidos em trabalhos semelhantes. E se você acha que seu trabalho é a vanguarda da inovação, pode tirar seu “cavalinho da chuva”. Até pode ser, mas é bem difícil. É provável que você não estaria lendo este artigo se fosse. A propósito, é para este “confronto” que serve a ” REVISÃO (ENCHEÇÃO DE LINGUIÇA) BIBLIOGRÁFICA”, um negócio que ficou tão banalizado, um “microondas de referências”, que muitas revistas/instituições de ensino nem exigem mais o destaque de tal item separadamente. Geralmente ele vem sendo colocado na “INTRODUÇÃO”, subsidiando a justificativa do trabalho.

Por fim, olha que pleonasmo, temos a “CONCLUSÃO”, que funciona meio como um parecer final do “O que deu”. É igual novela. Ainda que haja todo desenrolar da trama, no final precisa ser evidenciado quem é o assassino. E assim como todo parecer, ele deve ser direto, sem rodeios e, evidentemente, relacionado ao propósito do trabalho. Afinal, tem sentido concluir algo que não era seu objetivo? Inclusive meu/minha querido(a), esse é um dos primeiros pontos que um membro de banca analisa, se a conclusão dá “match” com o objetivo (#ficaadica). Caso contrário, ele será o ponto de partida do seu calvário na defesa.

Sendo assim, faça O trabalho PORCO e entregue um bom material acadêmico, pelo menos em termos de estrutura e coerência. Claro que existem muitas outras dicas e orientações para cada elemento colocado no corpo do texto, mas isso ficará para a série de artigos a ser derivada deste.

João Rosa é professor do Pecege e idealizador do canal Botão do Excel

Autor (a)

Ana Rízia Caldeira
Boa ouvinte, aprecio demais os momentos em que posso ver o mundo e conhecer as coisas pelas palavras das outras pessoas. Não por menos, entrei para o jornalismo. E além de trazer conteúdos para o Next, utilizo minhas habilidades de apuração e escuta para flertar com a mini carreira de apresentadora nos stories do MBA USP/Esalq, no quadro Você no Camarim. Quando não estou me ocupando em ser a garota dos textos e do Instagram, gosto de usar meu tempo para devorar livros, acompanhar algum bom filme, enfeitar minha casa com tapetes de crochê, desenhar flores e abusar dos meus dotes na cozinha.

Compartilhar