Orientado e Orientador

Um dos maiores temores de quem faz graduação ou pós-graduação é o trabalho a ser apresentado no final do curso e que, assim como Satanás, assume diversos nomes: relatório final, monografia, TCC, dissertação, tese, etc. Uma insegurança mais do que natural, afinal, não faz parte da nossa rotina conduzir trabalhos dessa natureza. Talvez o maior desafio seja colocar o que está em nossa cabeça no papel e, ainda, de forma “engomada”, já que academia é chata e cheia de etiquetas.

Mas, neste contexto desafiador, você tem uma esperança: o orientador. Uma figura estigmatizada por sabedoria e experiência que vai te tirar dessa. E com esta fabula à la “Fiona do Shrek” você inicia sua jornada acadêmica, esperando que seu príncipe encantado (o orientador) apareça e te liberte das garras do dragão (TCC), para que você viva feliz e saltitante com o título obtido. Uma ilusão fantasiosa, que em seguida vem acompanhada de frustração e desespero quando você começa a descobrir que não é bem assim. Algo semelhante a revelação da não existência do papai Noel na infância e que o caminho a ser trilhado está mais para o estilo Bird Box.

Como o processo de orientação não é lenda de natal e nem filme de suspense, muitos dos sentimentos negativos gerados podem ser evitados quando os papéis orientado/orientador ficam claros desde o princípio. Uma imagem que às vezes é míope, principalmente para aqueles que são “marinheiros de primeira viagem” e não muito ambientados com o mundo acadêmico.

Neste contexto de reflexão de responsabilidades, é prudente analisarmos a pergunta cerne do processo: quem vai receber o título do processo em questão, seja ele qual for? Você e não seu orientador! Portanto, a responsabilidade é sua! Uma das situações mais embaraçantes para um membro de banca é receber a resposta “meu orientador pediu para fazer assim” diante de questionamentos, especialmente aqueles cujo tom é de crítica. Uma resposta não tão automática para quando recebemos elogios e o ego está nas alturas, parecendo pavão no acasalamento. Nunca ouvi em nenhuma banca “é… a culpa é do meu orientador” quando o trabalho está ótimo. Delegar deméritos e assumir glórias é covardia.

“Então para que desgraça serve o orientador se tenho que fazer tudo sozinho?”. Se você pensa assim, é melhor nunca pagar por uma sessão de coaching – algo que está em alta hoje. Ou você acha que seu coach vai “botar a mão na massa” no seu lugar e alavancar seu crescimento profissional? Ele não vai e nem consegue fazer isso, afinal, o processo – e, consequentemente, todas as conquistas e desafios – é SEU! Em uma analogia com esporte: quem joga o jogo é o atleta, não o treinador. Portanto, encare sua relação com o orientador como um coach, que se analisarmos meio que de forma holística, até na tradução do termo se justifica.

E os orientadores “cabeça de bacalhau”, aqueles que “você sabe que existem, mas nunca vê”? Primeiro que este sentimento (ou fato, em muitos casos) não deveria existir. É papel do orientador ser “a bússola” do aluno, norteando o desenvolvimento do trabalho e, por mais que o trabalho não seja dele, ele é coautor da obra. E apesar do lema que prevalece ser “quem pariu Moisés que balance”, não se podemos negligenciar “quem ajudou a construir o berço”. Portanto, tanto nos bons quanto nos maus trabalhos, existe meio que uma “condução coercitiva” do nome do orientador e – pode apostar – ninguém quer seu nome vinculado a uma “cagada”.

Nos casos de não harmonia entre orientado e orientador, a melhor solução é a troca. Não é relação pai e filho, está mais para marido e mulher. O problema é que muitos deixam para a última hora as ações relacionadas ao desenvolvimento do trabalho e daí não existe tempo hábil para mudanças. Diferentemente do casamento, trabalhos acadêmicos têm prazos oficiais e premeditados. Você não é pego de surpresa. É tipo uma profecia. Portanto, planejamento e execução são fundamentais.

Para finalizar, como colocou Paulo Coelho em uma adaptação de “O Tratado de Tahlan”, um texto sobre a arte espiritual de manejar a espada – época dos samurais: “o verdadeiro mestre não é aquele que ensina um caminho ideal, mas o que mostra ao seu aluno as muitas vias de acesso até a estrada que ele precisará percorrer para encontrar-se com seu destino”.

Botão (João Rosa) é professor do Pecege e idealizador do canal Botão do Excel.

Autor (a)

Ana Rízia Caldeira
Boa ouvinte, aprecio demais os momentos em que posso ver o mundo e conhecer as coisas pelas palavras das outras pessoas. Não por menos, entrei para o jornalismo. E além de trazer conteúdos para o Next, utilizo minhas habilidades de apuração e escuta para flertar com a mini carreira de apresentadora nos stories do MBA USP/Esalq, no quadro Você no Camarim. Quando não estou me ocupando em ser a garota dos textos e do Instagram, gosto de usar meu tempo para devorar livros, acompanhar algum bom filme, enfeitar minha casa com tapetes de crochê, desenhar flores e abusar dos meus dotes na cozinha.

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