Amazon: o que a gigante do e-commerce pode ensinar ao varejo do Brasil

Conhecida pelo domínio no comércio eletrônico, a Amazon recentemente anunciou o início das operações de um novo centro de distribuições no Estado de São Paulo. Além de oferecer 120 mil novos produtos em seu estoque, a empresa promete mais agilidade nas entregas ao consumidor final. Mas, afinal, o que isso significará para o setor varejista?

Segundo Marcos Luppe, professor do MBA USP/Esalq em Varejo e Mercado de Consumo, a notícia já era esperada pelo mercado. “O que acontece é que a Amazon tem grandes adversárias aqui, tanto no e-commerce quanto no varejo físico. Então ela enfrentará alguns desafios recorrentes da competitividade”, ilustra.

Entre os concorrentes, estão os maiores players nacionais, como a B2W Digital, que que domina os sites da Submarino, Lojas Americanas e Shoptime, e as varejistas Magazine Luiza, Casas Bahia, Ponto Frio, sendo as duas últimas pertencentes ao grupo Via Varejo.

“Todos oferecem o serviço de compre e retire na loja, o que significa benefícios para o cliente. É uma desvantagem para a Amazon, que dificilmente pode ter essa força quando falamos de presença física aqui no Brasil”, explica Luppe.

Uma ameaça?

Para Edson Barbero, também professor do MBA, a entrada da empresa no Brasil deve trazer impactos relevantes para o varejo. Os efeitos começarão no círculo das empresas estabelecidas, dos mais diversos portes. “A Amazon tem um poder de compra global inigualável. Nenhuma empresa possui o poder de barganha com compradores que ela tem hoje”, comenta.

Com isso, maiores serão as promoções, que ficarão vantajosas perto das oferecidas pelos varejistas locais. “Isso tende a ocorrer quando há entradas de players muito poderosos, sobretudo se vierem, como no caso Amazon, com agressividade comercial bastante elevada”, ressalta.

Nesse cenário, o professor explica que empresas menos competitivas poderão perder sua capacidade mercadológica lentamente. Como saída, elas deverão se realocar em espaços de menor presença em relação à gingante americana.

Inovação para se copiar

Uma mudança que poderá acontecer com a entrada definitiva da empresa no comércio nacional tem relação a seu caráter inovador. “Se observarmos o que acontece na National Retail Federation, maior associação comercial do mundo, uma série de novidades ainda não foram implementadas no varejo nacional”, relata Barbero.

Um exemplo está ligado ao uso de tecnologias de automação de compras, entregas por drones, entre outras facilidades que ainda não fazem parte da realidade brasileira.

Por outro lado, o ingresso da concorrente é um fator que irá “chacoalhar” o mercado. A possibilidade de preços menores, com serviços melhores, entregas mais rápidas e menos problemas operacionais serão um benefício para o cliente, em primeiro lugar. “Uma empresa com nível de liderança tecnológica como a Amazon precisa ser copiada. No mundo dos negócios nós chamamos isso de benchmarking. Os varejistas brasileiros podem olhar para certas práticas da empresa como possível modelo a ser seguido”, ressalta o professor.

Investimento na economia

Por ser um player tecnologicamente eficiente, pouca mão de obra é necessária para executar as tarefas dentro da empresa. Diferente da média dos varejistas brasileiros, as operações da Amazon são efetivamente ou completamente online.

“Isso provoca uma reorganização do varejo nacional, no sentido de ter mais eficiência e empregar menos mão de obra. Em uma economia que tem carência de emprego, a retirada do atendimento feito por pessoas pode significar um impacto na oferta de vagas”, relaciona Barbero.

A longo prazo, a concentração econômica em um só player gera para a sociedade um reflexo negativo. “Na medida em que ele usa o poder de barganha para aumentar seus lucros, ocorre um aumento nos preços de serviços e produtos”. Este é outro fato que não se reserva apenas ao Brasil e ao setor varejista.

“É claro que essas observações devem ser relativizadas. O ingresso da Amazon não se dá em poucos meses, mas deve se materializar ao longo dos próximos anos. Devemos nos manter atentos a essa novidade com a entrada fortalecida da empresa no Brasil”, lembra o professor.

Ele reforça que a ação indica perspectiva de crescimento econômico no país. “Sobretudo porque uma empresa com tanto acesso a informação, que faz uso do Big Data, deve estar observando que a economia brasileira pode ter algum sinal de retorno. Ninguém faz investimento em um país que não tem potencial de crescimento”, afirma.

Para quem compra

Uma certeza que se estabeleceu com a notícia no mercado consumidor é mais uma possibilidade de compras. “Tenho acompanhado como consumidor e obviamente teremos benefícios, levando em conta a disponibilidade de uma gama de produtos”, observa Luppe.

Apesar disso, o brasileiro ainda não está habituado com o serviço da Amazon, o que significará um trabalho de atração de mercado nos próximos meses. “Temos que lembrar que ela não tem um nome tão grande em algumas regiões do país. De certa forma, só o tempo vai dizer o quanto eles irão avançar nas categorias aquisitivas.”

O destaque para as entregas rápidas também é uma meta a ser atingida, acompanhando o modelo da empresa nos EUA. Isso deverá ocorrer conforme novos centros de operações forem surgindo. “Na estrutura atual, teremos um bom atendimento em São Paulo. Já a concorrência tem outros centros de distribuição espalhados pelo país. Mas acredito que não irá demorar para a Amazon ganhar ainda mais espaço no mercado interno.”

O professor ressalta que levando em consideração os recursos, responsabilidades, capital e conhecimento, principalmente no comércio eletrônico, a conquista pela preferência do consumidor não será difícil de alcançar.

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Autor (a)

Ana Rízia Caldeira
Boa ouvinte, aprecio demais os momentos em que posso ver o mundo e conhecer as coisas pelas palavras das outras pessoas. Não por menos, entrei para o jornalismo. E além de trazer conteúdos para o Next, utilizo minhas habilidades de apuração e escuta para flertar com a mini carreira de apresentadora nos stories do MBA USP/Esalq, no quadro Você no Camarim. Quando não estou me ocupando em ser a garota dos textos e do Instagram, gosto de usar meu tempo para devorar livros, acompanhar algum bom filme, enfeitar minha casa com tapetes de crochê, desenhar flores e abusar dos meus dotes na cozinha.

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